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Artigo – Design sob tutela

Submitted by on Quinta-feira, 15 Abril 2010No Comment

Com as aplicações do Promob Arch, o profissional faz a documentação técnica e a renderização, gerando projetos com imagens quase reais, com um único programa. O software ainda possibilita a criação de animações que simulam um passeio virtual pelo ambiente projetado

Equipe de Trabalho

Quando ainda havia poucos profissionais formados, com reduzida experiência adquirida e sem titulação acadêmica, era compreensível que arquitetos, publicitários, engenheiros, entre outros, assumissem atribuições de desenhistas industriais ou designers. Desempenharam de modo significativo seu papel. Alguns se tornaram pioneiros em nosso campo de atividades, destacando-se no cenário econômico e cultural brasileiro e internacional. De formas diversas, contribuíram para o reconhecimento, a abertura de campo e a visibilidade da produção especializada. Entre eles, podemos mencionar Lina Bo Bardi, arquiteta, Aloísio Magalhães, advogado, e José Carlos Bornancini, engenheiro.

O Brasil tentava superar limites típicos de uma economia dependente e subsidiária. Enveredava por um caminho de substituição de importações, de desenvolvimento de tecnologias e de setores estratégicos da economia.

Não conseguimos lograr todos esses objetivos. Em meio a descompassos econômicos e grandes disparidades sociais, avançamos num processo de modernização conservadora que preservou resquícios de atraso.

É forçoso reconhecer que nossa profissão, assim como algumas outras, ainda padece de indefinições provocadas por vários fatores. A retração, a diversificação e a especialização do mercado de trabalho são alguns deles. O impacto das novas tecnologias, exigindo notável esforço de capacitação, é outro. A falta de regulamentação da profissão e de um estatuto profissional, talvez, seja o que nos causa mais embaraços.

Outro fator mais grave, a banalização do design. O rebaixamento do padrão de qualidade de projetos e de produtos, acarretando a presunção de que todos estão habilitados a desenvolvê-los. Como conseqüência, temos um campo de atividades permeável a todo tipo de intervenções. E a disseminação da falsa idéia de que não é necessária uma formação consistente para ser desenhista industrial ou designer.  Decalca-se o senso comum, segundo o qual talento não se desenvolve na escola. Esquece-se que a concepção e produção de produtos industrializados não exigem só talento individual, requerem competência, conhecimentos e habilidades múltiplas. Aptidões técnicas que superam lampejos criativos e soluções improvisadas. Exigem cada vez mais o trabalho de equipe, coletivo e transdisciplinar.

Para aqueles que supõem que talento não se adquire na escola é preciso  reiterar que a educação forma seres humanos, qualifica profissionais, infunde valores éticos, desenvolve aptidões técnicas, estimula o senso crítico e fornece horizontes mais abrangentes. Ou seja, oferece condições e opções num nível de intervenção profissional mais elevado.

Portanto, após quase meio século de ensino e de prática do desenho industrial ou design no Brasil, ainda não temos o devido reconhecimento. Ainda não logramos a justa regulamentação da profissão.

É imperioso ressaltar que ainda muitos direitos a reivindicar. Como categoria profissional, temos consciência que fazemos jus ao que reivindicamos.

Duas metas apresentam-se de pronto: a regulamentação da profissão e a melhoria dos padrões de qualidade dos cursos de design ou desenho industrial. O alcance destes patamares fornecerá maior balizamento, descortino crítico e proficiência técnica à nossa atuação profissional.

Contudo, a realização destes objetivos torna imprescindível a nossa unidade de ação, bem como a organização, a mobilização e intervenção coesa de desenhistas industriais ou designers.

Essa assertiva que parece óbvia e desnecessária, quando examinada sob outra ótica torna-se bastante pertinente.

Recentemente, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira- INEP, responsável pela avaliação de instituições e cursos de nível superior, adotou a seguinte diretriz: os seus avaliadores só poderão avaliar os cursos em que se graduaram. No caso do desenho industrial ou design só podem ser avaliadores os diplomados nestes cursos. Vista com estranheza por uns, tal decisão merece nosso louvor. Por quê?

Nosso campo de atividades é um dos poucos, senão único, no qual grande parte das pessoas que estão a frente de centros, de agencias de fomento, de programas, de comitês técnico-científicos, de unidades acadêmicas, entre outros, não são desenhistas industriais ou designers.

Vejam bem. Não estamos discutindo a competência técnica destas pessoas, observamos apenas que suas competências devem ser aplicadas no lugar adequado, no campo de trabalho para o qual se qualificaram. Advertimos: não estamos discriminando ninguém, pelo contrário nós é que estamos sendo discriminados. Estamos sendo desvencilhados de nossas atribuições, destituídos de nossas funções, ignorados em nossa profissão e desalojados de nosso campo de trabalho.

Atualmente há inúmeros profissionais graduados com descortino e larga experiência no campo do desenho industrial ou design. Profissionais que demonstram proficiência técnica e descortino no exercício de suas atividades. Mais de duzentos doutores com formação específica. Por que não são valorizados?

Daí, subsistem algumas perguntas:

Será que nos consideram incompetentes?

Será que não estamos aptos para falar em nosso próprio nome? Para dizer o que queremos?

Será que não temos condições de exercer condignamente as atividades para as quais nos qualificamos ? Precisamos transferir para outrem a responsabilidade pela avaliação de nossos trabalhos ?

Wagner Braga é professor aposentado da UFCG

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